anco esquerdo. - Por que eu? -
perguntou, inclinando a cabeça para o lado. - Por que
não meu tio? Por que não Sor Addam, Sor Flement ou
Lorde Serrett? Por que não um homem... maior?
Lorde Tywin pôs-se abruptamente em pé.
- É meu filho.
Foi então que compreendeu. Desistiu dele, pensou. Seu
maldito canalha, julga que Jaime é um homem
morto, e portanto eu sou tudo o que lhe resta, Tyrion
quis esbofeteado, cuspir-lhe na cara, puxar o punhal,
arrancar-lhe o coração e ver se era feito de ouro velho e
duro como diziam os plebeus. Mas ficou ali sentado, em
silêncio e imóvel.
Os cacos da taça partida rangeram sob os saltos do pai
quando Lorde Tywin atravessou a sala.
- Uma última coisa - disse ele da porta. - Não levará a
prostituta para a corte.
Tyrion ficou sozinho na sala comum durante um longo
tempo depois de o pai ir embora. Por fim, subiu os
degraus até suas acolhedoras águas-furtadas sob a torre
sineira. O teto era baixo, mas isso para um anão não
chegava a ser um problema. Da janela via o cadafalso
que o pai erigira no pátio. O cadáver da estalajadeira
girava lentamente na ponta de uma corda sempre que o
vento noturno soprava. Sua carne tornara-se tão escassa
e esfarrapada como as esperanças dos Lannister.
Shae soltou um murmúrio sonolento e rolou para ele
quando se sentou na borda da cama de penas. Enfiou a
mão sob a manta e envolveu com ela um seio suave, e os
olhos dela se abriram.
- Senhor - disse, com um sorriso sonolento.
Quando sentiu o mamilo enrijecer, Tyrion beijou-a.
- Tenho em mente levá-la para Porto Real, querida -
sussurrou.

Jon

A égua relinchou baixinho quando Jon apertou a cilha.
- Calma, querida senhora - disse ele em voz suave,
acalmando-a com um afago. O vento sussurrava no
estábulo, uma fria respiração de morte no seu rosto, mas
Jon não lhe prestou atenção. Atou o rolo à sela, sentindo
os dedos cheios de cicatrizes rígidos e desastrados. -
Fantasma - chamou, em voz baixa -, aqui - e o lobo ali
estava, com olhos que eram como brasas. -Jon, por
favor. Não pode fazer isto.
Ele montou, com as rédeas na mão, e fez o cavalo girar
para a noite. Samwell Tarly estava à porta do estábulo,
com a lua cheia espreitando-lhe sobre o ombro. Gerava
uma sombra de gigante, imensa e negra.
- Sai da minha frente, Sam.
-Jon, não pode - disse Sam. - Não vou deixar que faça
isso.
- Eu preferia não machucá-lo - disse-lhe Jon. - Afaste-se,
Sam, ou o atropelo.
- Não fará. Precisa me ouvir. Por favor...
Jon enterrou as esporas na carne da égua, que saltou
para a porta. Por um instante Sam manteve-se imóvel,
com o rosto tão redondo e pálido como a lua que tinha
atrás, a boca transformada num O de surpresa que se
alargava. No último momento, quando já estavam quase
sobre ele, saltou para o lado como Jon soubera que faria,
tropeçou e caiu. A égua saltou sobre ele, penetrando na
noite.
Jon subiu o capuz de seu pesado manto e deixou as
rédeas soltas. Castelo Negro encontrava-se silencioso e
imóvel quando cavalgou para o exterior, com Fantasma
correndo a seu lado. Sabia que havia homens observando
na muralha atrás de si, mas os olhos deles estavam
virados para o norte, não para o sul. Ninguém o veria
partir, ninguém além de Sam Tarly, que lutava para se
pôr de pé na poeira dos velhos estábulos. Esperava que
Sam não tivesse se machucado ao cair daquela maneira.
Era tão pesado e desajeitado que seria mesmo coisa de
Sam quebrar o pulso ou torcer o tornozelo ao sair do
caminho.
- Eu o preveni - disse Jon em voz alta. - De qualquer
forma, isto não tinha nada a ver com ele - flexionou a
mão queimada enquanto cavalgava, abrindo e fechando
os dedos cheios de cicatrizes. Ainda lhe doíam, mas era
bom não ter as ataduras.
O luar prateava os montes enquanto ele seguia a fita
retorcida da estrada real. Precisava se afastar o máximo
possível da Muralha antes que percebessem que
desaparecera. De manhã deixaria a estrada e avançaria
por campos, florestas e córregos a fim de despistar os
perseguidores, mas no momento a velocidade era mais
importante que a dissimulação. Afinal, não era como se
eles não adivinhassem para onde se dirigia.
O Velho Urso estava habituado a se levantar à primeira
luz da aurora, portanto, Jon tinha até essa hora para pôr
tantas léguas quantas pudesse entre si e a Muralha,., se
Sam Tarly não o traísse. O gordo rapaz era obediente e
fácil de assustar, mas amava Jon como a um irmão. Se
fosse interrogado, não havia dúvida de que Sam lhes
diria a verdade, mas Jon não o imaginava desafiando os
guardas à porta da Torre do Rei para acordar Mormont,
Quando Jon não aparecesse na cozinha para ir buscar o
café da manhã do Velho Urso, procurariam na sua cela e
encontrariam Garralonga sobre a cama. Tinha sido duro
abandoná-la, mas Jon não estava suficientemente
despido de honra para levá-la consigo. Nem mesmo
Jorah Mormont o fizera quando fugira em desgraça. Sem
dúvida que Lorde Mormont encontraria alguém mais
merecedor daquela lâmina. Jon sentia-se mal ao pensar
no velho. Sabia que sua deserção seria como sal na
ferida, ai